Margarida Girão: das mãos ao coração

Margarida Girão não é uma mulher qualquer. Assenta que nem ginjas na categoria de guerreira, uma artista que não se deixa abater e vai à luta. Conhecer o seu percurso foi como lavar a alma e deixar-me mergulhar num mundo de oportunidades que a própria constrói para si antes que os outros o façam.

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Começou a linha criativa que todos lhe conhecem hoje, a das colagens, aos 13 anos. Na altura sabia bem que o que estava a fazer tinha duas faces: a da expressão criativa e a da projecção para um futuro mais ou menos certo: «tinha a certeza de que iria retirar alguma coisa dali e foi por isso que coloquei data em todos os trabalhos, para poder consultá-los mais tarde e ver o processo de evolução. Olho para eles e acho-os muito giros, muito genuínos».

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Pelo meio, sabia, também, que queria ser jornalista de guerra para salvar o mundo, mas sem deixar a arte de lado. Enveredou por uma área de estudos que lhe deixou poucas opções para escolher Jornalismo e acabou por ir parar ao curso de Novas Tecnologias da Comunicação na Universidade de Aveiro, que concluiu em 1999, tendo iniciado, logo a seguir, uma outra actividade profissional, a de webdesigner. Mas a criatividade e o desejo de comunicar dessa forma não desvaneceu: «Trabalhei como freelancer para ter liberdade e tempo para os meus projectos, para desenvolver as coisas de que gosto e para criar oportunidades, e isto está muito presente em mim; nunca quis trabalhar com horário fixo dentro de um quadrado. Trabalhei em Aveiro até 2005, altura em que parti para dar aulas de Design e Multimédia em Timor Leste. Aconteceu por mero acaso e acabou por se revelar uma experiência intensa, apesar de terem sido quatro meses».

«Trabalhei como freelancer para ter liberdade e tempo para os meus projectos, para desenvolver as coisas de que gosto e para criar oportunidades, e isto está muito presente em mim; nunca quis trabalhar com horário fixo dentro de um quadrado».

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Depois de um novo regresso à Sertã, terra que a viu crescer, passou por Linda-a-Velha e acabou em Lisboa, inscrevendo-se num curso de Ilustração Infantil: «inscrevi-me para conhecer pessoas e porque achava que queria seguir este caminho, o da Ilustração Infantil, mas estava redondamente enganada. Comecei a interessar-me cada vez mais pelos trabalhos que fazia para mim e fui mostrando-os a editores de revistas e a agências de publicidade. Surgiram algumas oportunidades graças a isso e é algo que faço sempre: contactar pessoas de cá e do mundo inteiro, porque, com a Internet, não há fronteiras».

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Monotonia é algo que não existe na vida da Margarida. Em 2011, decidiu ir para São Paulo durante uma semana para apresentar o que fazia às agências. Regressou a Portugal, despediu-se e vendeu tudo o que tinha para ir viver de novo para São Paulo. «No primeiro mês, tive mais trabalho do que um ano inteiro cá, mas percebi, no primeiro mês, que não gostava da cidade. Decidi pegar na mochila e ir explorar o resto do continente. Passei pelo Chile, Argentina, Bolívia e Perú, a viajar e a trabalhar ao mesmo tempo».

«Foi tudo totalmente inesperado e, quase três anos volvidos, estou a começar a ver os efeitos de ter tido os tomates para fazer isso. Quando voltei a Portugal, estava mesmo baralhada: oito meses a viajar sozinha, fora do meu lugar de conforto – mesmo tendo feito amigos com quem mantenho contacto ainda hoje – é sempre algo muito diferente e ao qual não estás habituada. Cheguei completamente K.O. a nível emocional, o que me obrigou a fazer uma outra viagem, mas dentro de mim, para me reconstruir. Hoje sinto-me mais livre».

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Cada momento tem um significado especial para a Margarida e que está intrinsecamente ligado ao seu trabalho como artista plástica. Um dos seus projectos, A NEW DAY, aconteceu assim: «contactei um fotojornalista americano que tirou uma fotografia a uma menina-soldado e escrava sexual que estava num centro da UNICEF. Tinha o sonho de abrir um restaurante e eles estavam a preparar o caminho para isso. Quis fazer uma animação com a fotografia e assim o fiz, chamando-lhe A NEW DAY. Entretanto, a animação não pôde ser publicada, pois a menina desapareceu e não sabiam o que lhe havia acontecido. Meses mais tarde, lembrei-me das t-shirts que queria fazer e pensei no mesmo nome: a base era a mesma, um novo dia, uma nova oportunidade que estava a criar para mim».

«Quero deixar uma marca. Quero que as minhas colagens não sejam só bonitas, mas que incluam uma mensagem de motivação para que as pessoas as vejam e sintam inspiração para irem à luta e concretizarem sonhos».

Ao falarmos do seu processo criativo e de como chega ao resultado final, descobri que só recentemente retomou o hábito de usar papel e tesoura para fazer as colagens. Até então, e desde que entrou na universidade, o computador era o seu melhor amigo. Só no ano passado voltou a sentar-se à mesa para fazer uma colagem para um amigo, e agora entende que este regresso às raízes foi a melhor solução para o desprendimento criativo e, acima de tudo, para se sentir livre, algo que preza muito.

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A Margarida é a guerreira de si mesma. «Confio muito no meu caminho e no meu destino. É isso garantidamente que me mantém sempre a batalhar. Não nasci para ser infeliz. Se é isto que eu quero, se tenho capacidade, tenho de conseguir. Quero inspirar os outros a realizarem sonhos e a alcançarem objectivos. Se puder ajudar a sociedade de alguma forma com o meu trabalho, tanto melhor».

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Esta conversa aconteceu num espaço de cowork na Graça, que cruza joalharia de autor, design social, eco design, cenografia e incubação de projectos, num ambiente descontraído. Um segredo bem escondido, entre o Intendente, a Graça e a Mouraria, na Rua Particular à Manuel Soares Guedes.

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